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Monday, February 06, 2012

Sobre os ofícios de jornalista, cidadão e bloguista

O carácter anárquico da internet dos nossos dias deslumbra e assusta. Como meio de comunicação democrático que é, tem o mérito de subverter a tradicional comunicação vertical impositiva, numa outra, horizontal.

Por jornalista devemos entender o profissional que pesquisa, recolhe, selecciona e trata factos e opiniões através do texto, imagem ou som, sendo o seu trabalho desenvolvido como ocupação principal remunerada e destinada a ser divulgada por um meio de comunicação social. E bloguista? O que é? De momento apenas se sabe que a expressão está muito em voga e que estes vão mais à frente, já que detêm o controle completo dos conteúdos que pretendem editar – quem tiver uma estória para contar já não necessita de um editor para a dar a conhecer.
Moda? Narcisismo? Frustração? Necessidade de reforço de uma presença até então diluída nos media tradicionais? Altruísmo? Novos deveres de cidadania? O aparecimento dos bloguistas deriva do facto de a net e outras novas tecnologias de consumo, terem derrubado os obstáculos ao registo e divulgação de informação, possibilitando aos anónimos participarem num jogo tradicionalmente protagonizado por profissionais. Não nos enganemos no entanto, porque na maioria dos casos as notícias divulgadas pelos bloguistas tiveram origem nos media tradicionais.
A blogosfera permitiu ao cidadão não jornalista um refrescante protagonismo comunicacional. Sendo verdade que o bloguista pode fazer um trabalho de mérito, pergunta-se? Pode a informação estar dependente da voluntariedade, mesmo considerando que ela é idónea ?  Coisa que, desenganemo-nos, raramente acontece... 

Praticamente todos os jornais de referência do mundo oferecem a possibilidade aos seus leitores de criarem blogues. Entre nós os Expresso,  Sol, Publico e i são exemplos. São os media a tentar capturar os excessos!
Em 2006, o sindicato de jornalistas da Grã-Bretanha tornou-se na primeira entidade a regulamentar (ou pelos menos a tentar) a participação de cidadãos na produção e distribuição de notícias. Segundo este “Código de Conduta” os jornalistas britânicos só podem publicar uma informação recebida de um cidadão jornalista após verificação da sua veracidade, usando outras fontes. E entre nós? Do que estamos à espera?

Quais são então os limites do ofício do jornalista e do cidadão?

Uma corrente académica actual acredita que a liberdade de reflexão do receptor terá sido a progenitora da vulgarização do bloguista, materializada pela web. Este revolucionário meio de comunicação retiraria dos grandes veículos de mediação de massas a propriedade e a autoridade sobre a informação, passando assim esta a ser do domínio público.
Este no entanto parece ser um falso problema. A informação sempre foi do domínio público. As diferentes épocas históricas e os diferentes cenários políticos é que fazem dela artigo privado a ser disponibilizado consoante a ocasião entendida como a mais favorável.
Mas, escrever em blogues é fazer jornalismo? Os blogues actuais são estruturas que servem principalmente para a criação de opiniões – a criação autónoma, a liberdade de edição, a gratuitidade e os comentário são aliciantes para quem quer partilhar e libertar a sua opinião, embora geralmente correspondam ao assumir de protagonismos motivados por razões privadas. Blogues são apenas locais interactivos de produzir informação (pouca) e opinião (muita).
O bloguista será assim, tal como o cidadão-jonalista, apenas uma nova espécie no ecossistema mediático de uma rede que torna possível acumular as funções de repórter, redactor e editor. Trata-se de uma ruptura em relação aos meios tradicionais de comunicação de massas – qualquer computador ligado à internet, pode ser correio, jornal, editora, estação de rádio ou de televisão.
Mas, atenção! O entusiasmo com o potencial de inserção na rede precisa de ser refreado, tendo em conta a realidade da desigualdade ao seu acesso bem como a capacitação individual em a utilizar. Em Portugal apenas 15% da população tem acesso à net a partir de casa!...
Imberbes nos actos, ingénuos na excitação da novidade, o bloguista, mais tarde ou mais cedo, será também ele digerido na voragem interesseira dos grandes grupos económicos – coisa que aliás já vai acontecendo. Exemplo: O Publico.pt está a convidar bloguistas especializados que ocupem lugar de destaque no seu domínio, para se juntarem à lista de blogues do jornal.
A solução poderá passar pela associação dos cidadãos-jornalistas e/ou bloguistas à margem de qualquer grupo empresarial como de resto já foi feito pelo sul coreano Oh Yeon Ho e a sua publicação online OhMyNews, que conta com mais de 40.000 colaboradores pulverizados pelo mundo. Até quando será possível (até quando lho permitirão), ou até quando ele próprio não se afundará no seu próprio deslumbramento e se transformará naquilo que critica, eis a questão!?
Fundamentados na realidade de uma web sem restrições, os bloguistas podem tornar-se avessos a qualquer tipo de mediação ou controle, porque desvirtuaria a sua total liberdade de expressão. Mas, quantos estarão dispostos a pagar por uma publicação feita exclusivamente por eles? E quando os mecanismo de responsabilização legal e civil estiverem a funcionar em pleno, quantos desejarão continuar a sê-lo?
As notícias são gulosas em disponibilidade. Quanto envolvimento físico, mental e temporal o bloguista terá para dar, para além daquele que reforça o seu interesse pessoal e imediato? Durante quanto tempo? Será a interactividade (teoricamente inesgotável dentro de cada matéria) compatível com os prazos de conclusão dos trabalhos?
Talvez nas palavras de Ramonet esteja parte da explicação para isso, ao defender que “a informação está transformada em mercadoria. Não possui valor específico ligado, por exemplo, à verdade ou à sua eficácia cívica. Enquanto mercadoria, ela está em grande parte sujeita às leis do mercado da oferta e da procura, em vez de estar sujeita a outras regras, cívicas e éticas, de modo especial, que deveriam, estas sim, ser as suas”.
Vivemos numa época em que a especialização é a cereja, no bolo da qualquer carreira. Porque boa razão passará agora a massa anónima de cidadãos mais ou menos letrados, a iluminar-se nas fontes subjectivas de um qualquer bloguista, em prejuízo de um profissional de comunicação? Estarão os media a desistir das suas verdadeiras responsabilidades por razões primárias (leia-se economicistas)? Estou com medo que esta seja a verdadeira razão...
São as novas necessidades que geram as novas funções. Elimine-se a necessidade sentida por alguns cidadãos em dar a conhecer o mundo tal como ele verdadeiramente é, reconquiste-se a confiança outrora sentida pelos cidadãos nos jornalistas e teremos de novo cada um a cumprir o seu ofício.
Mas, helas, não nos esqueçamos que o potencial emergente da net é tudo menos privilégio apenas dos cidadãos. As multinacionais, parecendo de momento anestesiadas e confusas, são gigantes adormecidos que não tardarão a acordar. E de novo os cidadãos tentarão reagir. E, é deste equilíbrio desequilibrado que se vai fazendo (e lamentando) o percurso da história. A ágora ateniense nunca foi verdadeiramente instituída tal como nunca será a ágora electrónica materializada pelo nó que cada cidadão constituiria na rede.
Deixemo-nos de utopias. As condições sócio-económicas proporcionadas aos cidadãos são as verdadeiras ferramentas da democracia. Não o web-jornalista, não os bloguistas.


Wednesday, November 08, 2006

Regiões Demarcadas. Colete de Salvação ou Colete de Forças?


A questão, em voz alta e assim de repente, também se me perfila como incomodativa. Situa-se algures entre o "absurdo" e o "porque não pensar nisto".
Não sendo meu objectivo verter presunçosas teses sobre a temática, não deixa de me parecer interessante discorrer sobre ela.

Para além de toda a filosofia cultural, geográfica, histórica, sentimental, religiosa, etc etc que lhe está associado, o vinho é, na essência , um produto alimentar. Nesta condição, deve apresentar-se ao consumidor em irrepreensíveis condições físicas (a embalagem, o rótulo, a rolha, etc.),químicas ( acidez volátil, sulfuroso, extrato seco, álcool, etc.) e gustativas (o aspecto, os aromas, os sabores).
Garantidas que estejam estas premissas na sequência da actuação dos diferentes organismos reguladores (IVV, Comissões Vitivinícolas, etc) porque não pensar o vinho como um produto feito para garantir a máxima satisfação do consumidor, (o vinho feito pelo enólogo e para o enólogo é outra louça), estando implícita nesta obrigatoriedade alguma desregulamentação do sector e, quiçá, o repensar do que deve ser entendido como "região demarcada".
Entrariamos assim num outro universo, com outras possibilidades. Por exemplo, juntar castas de diferentes regiões e mesmo de diferentes países, desde que o resultado final fosse um vinho que de facto trouxesse algo de novo aos consumidores - novas nuances cromáticas, novos aromas, novas sensações no palato. Sentir de uma vez por todas esse tal de umami!
E não. Não me acenem com "bom, mas isso de facto já existe. São os chamados vinhos de mesa sem certificado de origem". Não é a mesma coisa. Estes, são vinhos produzidos em qualquer tipo de solo, sem limite máximo de rendimento/ha, sem controlo efectivo aos adjuvantes usados na vinificação, com critérios analíticos e gustativos demasiado elásticos.
Falo de outra coisa, falo de vinhos que se poderiam afirmar apenas pela marca, pelo produtor, pela qualidade intrínseca que revelam, mais do que pelo facto de serem produzidos nesta ou naquela região, com este ou aquele encepamento. As castas "autorizadas" ou "recomendadas" seriam aquelas que o produtor/enólogo entendessem e não aquelas que a legislação permite para cada região. (Coisa que de resto até já se fez, subliminarmente, com resultados indesmentíveis desde 1952. O que foi o Barca Velha desde esse ano pioneiro, até à decada de 80 senão um vinho de mesa sem qualquer controle regulamentador? Alguém se importou com as castas? Alguém se importou com os rendimentos por hectare? Alguém se importou com os métodos de vinificação? Não, porque de facto o resultado foi soberbo.
Não é uma hipócrisia admitir em algumas regiões demarcadas nacionais, castas como Gewurztraminer, Chardonnay, Arns Burguer, Cabernet Sauvignon e outras, que nada trazem de novo aos vinhos (ou melhor, trazem mas é para pior) e não abrir caminho a castas que de facto poderão corrigir desiquilibrios estruturais nos mostos mesmo que não sejam legalmente admissíveis?
Não seria preferível, por exemplo, permitir (legalmente...) o cultivo de uma qualquer casta branca da Região dos Vinhos Verdes na Região Demarcada do  Alentejo, ou no Ribatejo ou no Douro, casta essa que conferiria ao mostos/vinhos uma acidez fixa mais elevada, em vez de anualmente se adicionarem toneladas e toneladas de ácido tartárico (por vezes acima do limite de 1,5 g/l permitido por lei),aqui a ali temperado com sulfúrico, aos mostos de pH alto? Se o resultado fosse um vinho de qualidade superior, porque se impede, pela legislação, que isto aconteça?

O vinho produzido em países onde não se fala de Regiões Demarcadas - Argentina, EUA, Chile, Austrália, Nova-Zelândia, África do Sul,... deixa de ser vinho? Porque ganham tantos prémios internacionais? Trata-se apenas de marketing? Creio que não. Independentemente da formatação/globalização efémera de gostos, aferidos às brevemente esgotadas Cabernet Sauvignon e Chardonnay, há de facto uma qualidade íntrinseca nos vinhos destes países produtores não europeus. Testemunho: bebi há meses no Brasil um tinto nativo de Pinot Noir do estado do Rio Grande do Sul que me revirou os olhos.
Mas abordemos o discorrer por outro azimute. Muitas das castas de hoje, por efeitos dos aturados e meritórios trabalhos de selecção massal e clonal de que foram alvo, têm um comportamento fisiológico muito distinto do material original. Logo, dão origem a vinhos que, aos pouco, se afastam do perfil típico do vinho da respectiva região demarcada. O desvio será maior se introduzirmos uma casta "estranha" mas beneficiadora numa região demarcada ou se levarmos a selecção das castas indígenas ao extremo? Atentemos por exemplo à recente alteração da legislação que permite o aumento do teor alcólico dos Vinhos Verdes. Descontadas as responsabilidades imputadas aos verões atípicos que se têm feito sentir, o que é isto senão uma adaptação de novos tempos a novas realidades? O vinho perderá por isso? Humm.... não creio.
Mais ainda. Parece-me muito mais assertivo classificar os vinhos (Vinho de Mesa, Vinho Regional, Vinho IPR ou Vinho DOC) ano a ano, produtor a produtor, do que classificá-lo como isto ou aquilo antecipadamente, apenas porque está dentro ou fora de uma região demarcada. Seria uma espécie de prolongamento do critério "vintage" aplicado a todos os vinhos. No ano A o vinho poderia ser DOC, mas no ano A+1 o mesmo vinho poderia ser apenas Vinho de Mesa. Seria o critério "qualidade anual" e não o critério (estafado, a meu ver) "região demarcada" que estaria na base da atribuição da classificação.
O que é a tipicidade de um VQPRD nado de castas recomendadas, exaustivamente regulamentado, produzido, analisado, degustado, certificado, premiado, se entretanto se permite a sua madeirização com a mais "típica" madeira (com chofa "à la carte") francesa, americana ou de um qualquer país do leste europeu, até ao extremo do enjoativo e corrector de maleitas organolépticas? O que é a tipicidade se se permite a inoculação de bactérias e leveduras seleccionadas em regiões tão "típicas" com a Alemanha, a Espanha, ou a Austrália?
Andamos ou não a brincar ao faz-de-conta-que-o-vinho-é-típico-porque-veio-de-uma-região-demarcada?

Tuesday, November 07, 2006

Cânones ou Ditaduras Promocionais?

Viram há dias na RTP2 o filme/documentário Mondovino de Jonathan Nossiter? Foi de resto a repetição do que há cerca de 2 anos passou no cinema – curiosamente (considerando o país de vinho que somos) de forma bastante tímida. Para quem viu, está lançado o mote. Para quem não viu, aconselho o seu visionamento. É imperdível!  Deduzo que possa estar disponível em algum clube de vídeo. Em resumo, debruça-se sobre a sempre quente temática Vinhos Artesanais versus Vinhos Industriais e a eventual (ou mais que isso) promiscuidade existente entre os principais media promocionais de vinhos (no caso, a revista Wine Spectator) e o efectivo valor enológico desses produtos. Ou, dito de outra forma, até que ponto se pode confiar nas classificações atribuídas a determinados vinhos, pela imprensa da especialidade? As distinções, vertidas em profusas tabelas, correspondem ao real valor do produto ou são reflexo de interesses menos transparentes com o objectivo de catapultar uma marca, uma empresa, uma personalidade? Quem garante a autenticidade, a idoneidade ou a democraticidade do que chega às salas de prova das Revistas? Os provadores são isentos? São tecnicamente formados? Quem lhes conferiu o estatuto de “provador”? Sofrem ou não a influência da marca?

Gostaria de acreditar que tudo vai bem nesse reino, mas não tenho a certeza de que assim é de facto. Para aumentar o desassossego, recordo a título de exemplo comparativo, a falsidade dos conteúdos jornalísticos da autoria de Jayson Blair, vindos à estampa no insuspeito The New York Times, há bem poucos anos - coisa que, de resto, deu origem ao filme Verdade ou Mentira de Billy Ray.
Recentrando a questão: o ícone comunicacional mundial em que se transformou a revista norte-americana Wine Spectator exsuda uma viscosa relação de promiscuidade entre os gigantes vitivinícolas mundiais e as tabelas classificativas dos respectivos vinhos. Os seus principais rostos – Robert Parker e Michel Rolland não serão alheios a tudo isto. Digo eu….A título de exemplo recordo apenas a “coincidência” que foi a penalização sofrida pelos vinhos franceses, depois do declarado não-alinhamento da França na guerra contra o Iraque.
Da mesma forma não se compreende a súbita promoção da região italiana da Toscânia a uma das melhores do mundo, logo após o gigante norte-americano Mondavi ter assumido interesses na região.
A “coincidência” de resto mantém-se. Na tabela Top 100 da Wine Spectator 2005 a mesma região (Toscânia) viu eleitos 7 vinhos entre os 100 melhores do mundo. Como comparação adianto que em todo o nosso Portugal, apenas 4 vinhos figuram na mesma classificação – Quinta do Vallado 2003 Douro Reserva em 27º lugar; Quinta de Roriz 2003 Douro Prazo em 55º lugar; Quinta de Ventozelo 2000 Reserva 2000 em 73º lugar e Cortes de Cima 2002 Touriga Nacional Alentejo, em 99º lugar.
Já agora, refiro nova “coincidência” : a mesma revista, no mesmo Top 100/ 2005, colocou “apenas” 30 vinhos norte-americanos entre os 100 +, sendo que, nos 10 primeiros meteu 5. Ainda preciso de dizer qual foi o país que ficou em 1º lugar?

Wine Spectator, Wine Enthusiast, Wine&Spirits, Spirits Journal, Decanter, Revista de Vinhos,....Merecem de facto a confiança dos consumidores?
Numa época em que todos controlam todos, quem faz a revisão da nave estelar que promove a ascenção mediática de marcas e de críticos de vinhos, forjados no cadinho de interesses dos grandes grupos mediáticos e/ou vitivinícolas? Quem verifica a isenção e o rigor das provas nos bastidores das Revistas?
Não há por aí nenhuma entidade/corpo técnico que, (e apesar da subjectividade que encerra o exercício da apreciação organoléptica de um vinho), garanta de facto que a qualidade intrínseca de um vinho premiado corresponde minimamente ao lugar ocupado numa tabela? A reflexa e meteórica subida de preço dos vinhos distinguidos é justa, considerando que na maioria dos casos o vinho já tinha preço definido no mercado? Que Baco nos valha!

Identificado que está o problema, apresentemos uma solução: que os consumidores anónimos e insuspeitos, altruisticamente, dêem a conhecer a sua opinião sobre os vinhos que degustaram. E, esta idéia nem sequer é pioneira, porque já há quem o faça. Trata-se agora apenas de fazer crescer o número de participantes. Da minha parte aqui vai o contributo : Dona Ermelinda Tinto Palmela DOC 2003. Numa feira de vinhos de um hipermercado comprei-o a quatro euros e gostei. Muuuiiitooo. Aroma evoluído,excelente estrutura e relação taninos/álcool/corpo. Ataque e final suave, com presença distinta na boca pelo corpo e pelo aroma.
Pena que já só tenho uma em casa...

Saturday, November 04, 2006

Práticas Enológicas Flutuantes

No dia 11 do mês passado, a Comissão Europeia (finalmente para uns, incompreensivelmente para outros) aprovou a legislação que permite a adição de pedaços/aparas de madeira ao vinho. Objectivo desta prática: madeirizar o vinho de forma mais rápida (porque se aumenta a superfície específica de contacto vinho/madeira) e mais barata (a madeira a utilizar será sempre um sub-produto da indústria de tanoaria, pelo menos até ao momento em que as empresas vendedoras consigam cinicamente convencer os clientes de que as aparas são melhores que os cascos. Ele há gente para tudo!…).
Como positivo da coisa temos que, de alguma forma, se tenta regulamentar uma prática proibida(na Europa, não nos países produtores do Novo Mundo) mas de facto praticada (é mais ou menos como o que se passa com o aborto…) pelas empresas mais insuspeitas. Regulamentam-se assim a terminologia do rótulo e a pureza e dimensão das aparas(chips) que têm de ser superiores a 2mm.
Como negativo, temos que o OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho) ao aceitar esta medida como prática enológica corrente, entra de alguma forma em contradição com outras práticas, nomeadamente a que refere a proibição de recorrer a aromatizantes na produção de vinho.

Se a fermentação, o estágio ou o envelhecimento de vinhos em cascos já funcionavam como fonte “artificial” de componentes aromáticos para o vinho, o que dizer destas “bombas” de aroma a madeira que também são as aparas(chips) ou os pedaços(ministaves)?
Está aberto o caminho para outros adjuvantes aromáticos ou abre-se uma enorme excepção aplicável apenas a esta medida?
Contente contente deve ter ficado o lobby francês da madeira de carvalho, premonitoriamente avisado pelo concidadão Lavoisier que já no século XVIII afirmava: “…nada se perde, tudo se transforma”.

Deseja-se sobretudo que o controle efectivo desta prática seja feito e que, em algum lugar da roupagem da garrafa, a informação sobre o tipo de técnica utilizada seja inequívoca. Mais ainda, esperemos que, para os amantes de vinho madeirizado, o preço por garrafa venha a descer, caso seja a madeira a estar dentro do vinho em vez do vinho dentro da madeira, coisa que tenho dificuldade em acreditar....